Perfil: José Eduardo dos Santos, o déspota discreto

Perfil: José Eduardo dos Santos, o déspota discreto

Perfil: José Eduardo dos Santos, o déspota discreto

Chegou ao poder porque era, dos presidenciáveis, o mais fraco. Nos primeiros anos, não “mexeu uma palha”. Mas demonstrou a capacidade de adaptação suficiente para sobreviver à queda do Muro de Berlim, abraçar o capitalismo mais selvagem e ainda enriquecer-se e à sua família.

1977. José Eduardo dos Santos chefiara, antes daquela data, uma comissão de inquérito anterior a esses acontecimentos, para investigar se havia ou não fraccionismo no MPLA, comissão essa que produziu um relatório inconclusivo e que até hoje não é oficialmente conhecido. Nos acontecimentos do 27 de maio, em que terão sido massacradas pelo menos 30 mil pessoas, o nome de Eduardo dos Santos e o do então primeiro-ministro Lopo do Nascimento teriam feito parte das listas dos dirigentes a serem presos, o que acabaria por não ocorrer.

Justino Pinto de Andrade, que na época estava deportado no Moxico, Leste de Angola, depois de ter sido preso por fazer parte da corrente Revolta Ativa, recorda que quando soube da morte de Agostinho Neto, temeu a ocorrência de uma qualquer forma de sublevação, ou até mesmo uma “quartelada” estimulada por alguma ala interna do partido.

“Passado o transe começou então a falar-se insistentemente nas diversas hipóteses para ocupar o lugar deixado vago por Neto: Lúcio Lara? Ambrósio Lukoki? Pascoal Luvualu? José Eduardo dos Santos?”, lembra ele. Eduardo dos Santos ficara a substituir o presidente, por ser o 1º Vice-Primeiro-Ministro e Ministro das Relações Exteriores. “JES era demasiado enigmático. Pouco se lhe ouvia falar”. Esse caráter do então ministro ajudou à sua escolha. “Todos pensaram que facilmente o poderiam influenciar. Os outros potenciais candidatos à sucessão de Agostinho Neto possuíam perfis polémicos, ou eram demasiado previsíveis”, explica Justino Pinto de Andrade, atualmente dirigente do Bloco Democrático.

“Durante muito tempo José Eduardo dos Santos não mexeu numa “palha”, porque estava demasiado condicionado pelos seus pares. Mas houve mesmo quem o achasse simplesmente o continuador de um projeto para que fora moldado na sua juventude como estudante na União Soviética. Estaria então ‘a jogar o jogo’ de que mais gostava…”

No conto “O bom déspota”, publicado recentemente na revista Granta, o escritor angolano José Eduardo Agualusa retrata com perfeição a forma de atuar do jovem presidente nesses primeiros anos. O conto simula as recordações do próprio Eduardo dos Santos, na primeira pessoa:

“Durante os primeiros anos fingi-me de morto. Deixei que me vissem como um fiel herdeiro do falecido Presidente e, ao mesmo tempo, fui libertando sem alarde os fraccionistas que haviam sobrevivido aos fuzilamentos e aos campos de concentração. Nomeei alguns para importantes cargos governamentais. Nunca mais criaram problemas”.

Porque haveria o capitalismo de nos combater?”

Se, até à sua retirada em 1991, o apoio das tropas cubanas fora decisivo para os rumos da guerra, barrando a ofensiva da África do Sul em apoio à Unita, nos anos 90 as mudanças da política do MPLA, enterrando os bustos de Lenine e as referências ao socialismo e proclamando a adesão às teses capitalistas e a um arremedo de regime multipartidário, abolindo proclamatoriamente o sistema de partido único, seriam decisivas no terreno geoestratégico. Os poços de petróleo controlados pelo governo de Luanda valiam mais do que as minas de diamantes sob controlo da Unita, e José Eduardo dos Santos conseguiu convencer Washington de que o seu governo estava agora aberto a todos os negócios.

Com estes trunfos, a derrota de Savimbi na nova fase da guerra, após o fracasso dos acordos de Bicesse, era uma questão de tempo. Sem o apoio dos EUA, a Unita retrocedia. Mas o epílogo ainda demoraria dez anos a chegar, no dia em que o líder do Galo Negro foi apanhado e morto no mato, ingloriamente, a 22 de fevereiro de 2002, depois de ver o seu partido esfacelar-se em dissidências

Continua

Lisboa aos ,15 de dezembro 2013

Por : Luís Leiria