REFLEXÃO BANCA / SEGUROS

REFLEXÃO BANCA / SEGUROS

Aactividade seguradora em Angola encontra-se num ponto de inflexão.
A gradual estabilização macroeconómica, aliada à crescente sofisticação dos agentes económicos
e ao fortalecimento institucional do sector,abre caminho a uma nova etapa de consolidação, modernização e expansão. Contudo, este caminho não pode ser trilhado sem a adopção de modelos de decisão sustentados, que tenham em devida conta factores críticos como a concorrência, a confiança do investidor,a eficiência operacional e, sobretudo, a capacidade de adaptação à dinâmica dos serviços financeiros modernos.
A evolução do sector não pode ser entendida como fenómeno isolado. Está inserida num
ecossistema onde convergem interesses económicos, exigências regulatórias e expectativas crescentes dos consumidores.

Por isso, impõe-se uma abordagem estratégica, de longo prazo, orientada por metas bem definidas e pela valorização contínua das empresas seguradoras enquanto actores centrais do desenvolvimento económico nacional.
Um dos grandes desafios que se coloca às seguradoras angolanas reside na sua capacidade
de incrementar o valor gerado para os accionistas, sem descurar o compromisso com a protecção dos segurados e o fortalecimento do tecido económico. Este equilíbrio delicado exige não apenas solidez financeira, mas também visão estratégica, inovação e adaptação.
A criação de valor passa, inevitavelmente, por uma reestruturação de portfólios, pelo reforço
dos mecanismos de governance e pela digitalização dos processos.

Acresce ainda a importância da gestão de risco empresarial e da adopção de práticas actuariais mais robustas, que permitam às empresas resistir melhor a choques exógenos e garantir a sustentabilidade a médio e longo prazo.
Neste percurso, a concorrência desempenha um papel crucial. Longe de ser uma ameaça,deve ser vista como alavanca de melhoria contínua.

Contudo, esta concorrência deve operar em condições de equidade, com respeito pelas regras do jogo e valorização dos diversos canais de distribuição.

É aqui que se coloca um dos temas mais sensíveis da actualidade: a actuação dos bancos como mediadores de seguros.
Nos mercados mais desenvolvidos, o conceito de bancassurance consolidou-se como uma
prática eficiente e mutuamente vantajosa: os bancos, valendo-se da sua capilaridade e da
confiança que inspiram junto dos clientes, funcionam como canais de distribuição para produtos de seguradoras parceiras, sem que com isso se substituam às seguradoras ou aos mediadores especializados.
Contudo, em Angola, a realidade é outra.

Os bancos deixaram de ser apenas parceiros comerciais das seguradoras para se tornarem
mediadores formalmente legitimados, passando a disputar o mesmo espaço dos agentes tradicionais, muitas vezes com vantagens operacionais e institucionais evidentes.

Esta situação levanta legítimas preocupações quanto à concorrência desleal e à fragilização dos mediadores independentes, que vêem o seu papel cada vez mais esvaziado.
Importa, pois, que o regulador actue com firmeza e discernimento, promovendo uma convivência saudável entre os diferentes agentes do mercado e evitando a concentração excessiva de poder de distribuição nas mãos das instituições bancárias, sob pena de se comprometer a diversidade e pluralidade do sector.
Outro fenómeno digno de nota é o da chamada assufinance, que consiste na oferta, pelas
seguradoras, de produtos com uma componente financeira acrescida, ligados a obrigações, fundos de investimento ou outros instrumentos de natureza híbrida.

Esta tendência,ainda incipiente em Angola, revela-se promissora na medida em que aproxima os mundos
da segurança e do investimento, respondendo às necessidades de um público cada vez mais
exigente e sofisticado.
A assufinance é expressão de uma tendência mais ampla: a integração e globalização dos
serviços financeiros, onde as fronteiras entre banca, seguros, gestão de activos e serviços
de pagamento se tornam cada vez mais difusas.

Esta convergência, se bem regulada, pode traduzir-se em oportunidades concretas para o consumidor, na forma de produtos mais personalizados, maior conveniência e melhor rentabilidade.
Todavia, a cooperação entre prestadores de serviços financeiros deve assentar em bases
éticas, regulatórias e comerciais claras, que garantam a protecção do consumidor, a transparência na comercialização de produtos e a solidez das instituições envolvidas.

A ausência de regras claras ou a sua aplicação desigual pode dar origem a conflitos de interesse, práticas abusivas ou riscos sistémicos.
As perspectivas de evolução da actividade seguradora em Angola são, no essencial, positivas. Há espaço para crescimento, há necessidades sociais por satisfazer (sobretudo nos domínios da saúde, da agricultura, da responsabilidade civil e da protecção do património) e há vontade política de reforçar o papel do sector na economia.

Mas para que esse potencial se concretize, são necessárias reformas estruturantes.
Entre essas reformas, destaca-se a necessidade de rever o enquadramento legal da mediação, reforçando o papel dos mediadores tradicionais, promovendo a sua formação contínua e definindo com clareza o papel dos bancos na venda de seguros.

É também crucial incentivar a inovação, a entrada de novos operadores, o desenvolvimento de produtos microseguro, a digitalização e a interoperabilidade entre plataformas.
Por fim, o sector segurador deve assumir plenamente o seu papel de parceiro estratégico do
desenvolvimento. Isso implica dialogar com o sistema bancário, com o Estado, com os consumidores e com a sociedade civil, numa lógica de cooperação, mas também de responsabilidade.
O futuro do seguro em Angola será aquilo que os seus actores quiserem fazer dele.

Se forem capazes de se adaptar, cooperar e inovar, respeitando regras claras e equilibradas, poderão
não só conquistar novos mercados, mas também reafirmar o valor do seguro enquanto instrumento essencial de confiança, resiliência e justiça social.
A tarefa não é fácil, mas é certamente possível – e absolutamente necessária

Por : PAULO CALUNGA