Abel Chivukuvuku, ele esta consciente ou inconscientemente, ao serviço do MPLA?

Abel Chivukuvuku, ele esta consciente ou inconscientemente, ao serviço do MPLA?

Na complexa e, por vezes, traiçoeira arena política angolana, poucas acusações são tão venenosas quanto a de ser um “marrimbondo” — um opositor cuja ferroada se destina não ao poder instituído, mas aos seus próprios pares, minando a unidade de dentro para fora.

A recente e audaciosa manobra de Abel Chivukuvuku ao batizar o seu novo projeto político com a sigla FPU não só reavivou o debate, como colocou o veterano político no epicentro de uma tempestade de desconfiança, forçando a pergunta que muitos sussurram: estaria ele, consciente ou inconscientemente, ao serviço do MPLA?

Para entender a gravidade da acusação, é preciso dissecar os factos.

A sigla FPU (Frente Patriótica Unida) não era um ativo vago; era a marca da mais coesa e promissora frente de oposição dos últimos anos, que em 2022 galvanizou uma parte significativa do eleitorado.

Ao apropriar-se deste símbolo, Chivukuvuku não cometeu apenas um ato de pirataria política; ele desferiu um golpe simbólico no coração da unidade que ele próprio ajudou a construir.

Uma ação tão calculadamente disruptiva não parece ser obra do acaso. Parece seguir uma cartilha.

A cartilha do “marrimbondo” é simples: quando a oposição se une e se fortalece, introduz-se um elemento de caos para implodir o movimento por dentro. O resultado da jogada de Chivukuvuku é um presente de ouro para o MPLA: a oposição, em vez de focar a sua energia na fiscalização do governo e na preparação para futuros desafios eleitorais, vê-se mergulhada numa guerra civil por causa de uma sigla. O debate público desvia-se dos problemas do país para as querelas internas dos opositores. O eleitorado, por sua vez, assiste com desânimo e desconfiança, concluindo, mais uma vez, que “são todos iguais”.

O histórico de Chivukuvuku, marcado por dissidências (a saída da UNITA, a criação e posterior fragmentação da CASA-CE), alimenta esta narrativa. Os seus defensores argumentarão que se trata de um político de convicções fortes, incapaz de se vergar a projetos que não lidera. Os seus críticos, no entanto, veem um padrão consistente de ações que, no final do dia, resultam sempre no mesmo: a fragmentação da oposição e, por consequência, o fortalecimento do status quo.

É possível que Chivukuvuku não receba ordens diretas do Futungo de Belas. A sua motivação pode ser uma mistura complexa de ambição pessoal, ego ferido e uma genuína, embora talvez míope, visão estratégica. Contudo, na política, as consequências muitas vezes sobrepõem-se às intenções. Quando as ações de um político, independentemente dos seus motivos, servem de forma tão perfeita e previsível aos interesses do adversário, a distinção entre um “marrimbondo” e um aliado involuntário torna-se academicamente irrelevante para o eleitor.

A pergunta que intitula este texto talvez nunca tenha uma resposta provada com um telefonema gravado ou um documento assinado. Mas o veredicto político não precisa de tais provas. Ele é formado pela observação dos resultados. E o resultado, até agora, é claro: a unidade da oposição foi ferroada, e o único que parece imune ao veneno é o partido no poder.

Por : Moises Fernandes