Angola Meio Século de Independência: O Povo Continua sem Dignidade
Opinião
Cinquenta anos. Meio século desde que Angola se ergueu soberana, prometendo um futuro de liberdade, progresso e, acima de tudo, dignidade para o seu povo. Celebramos o marco, a data, o símbolo. Mas enquanto os discursos oficiais ecoam os sacrifícios dos heróis do passado, uma pergunta dolorosa paira sobre a nação: o que aconteceu à dignidade do povo?
Cinquenta anos depois, a dignidade não se encontra nos hospitais, onde faltam medicamentos básicos e as mães veem os seus filhos morrer por doenças evitáveis. Não está nas escolas, onde as crianças se sentam no chão por falta de carteiras, privadas de um futuro que lhes é roubado antes mesmo de começar. Não está à mesa de milhões de lares, onde a luta diária pela comida se tornou a principal ocupação de um povo exausto.
A dignidade foi sequestrada por uma teia de interesses que opera à luz do dia, com um descaramento que insulta a inteligência e a paciência dos angolanos. Enquanto o cidadão comum sobrevive, uma elite celebra a sua própria prosperidade, construída sobre os alicerces da corrupção sistémica.
Vemos a dignidade ser espezinhada quando a seguradora do esposo da Ministra das Finanças, a VIVA Seguros, abocanha contratos milionários com o Estado, ao mesmo tempo que o seu nome e o da empresa são associados a um esquema de desvio de 7 mil milhões de kwanzas da AGT. A guarda do tesouro público e a sua família parecem ser os primeiros a beneficiar dele, num conflito de interesses que já nem se dão ao trabalho de disfarçar.
Vemos a dignidade ser humilhada pela existência de “intocáveis” como Óscar Tito Cardoso Fernandes, o “barão da construção”, que, protegido por figuras como Edeltrudes Costa, beneficia de contratos de mais de 20 mil milhões de kwanzas, enquanto as infraestruturas do país continuam a ruir.
Vemos a dignidade ser defraudada quando figuras como Elias Chimuco, um dos maiores devedores do banco público BPC, utilizam fundos para criar os seus próprios bancos e projetos privados, numa clara demonstração de que, em Angola, a dívida ao Estado é um trampolim para o enriquecimento, e não uma obrigação a ser honrada.
E vemos a dignidade ser ridicularizada quando empresas públicas estratégicas, como a TAAG, acumulam perdas bilionárias, ou quando a agência que deveria regular os seguros, a ARSEG, duplica os salários dos seus dirigentes enquanto os seus lucros caem a pique.
Meio século depois, a independência política foi conquistada, mas a independência económica e social do cidadão comum continua a ser uma miragem. A verdadeira soberania de uma nação mede-se pela dignidade do seu povo. E enquanto a riqueza de Angola for drenada para alimentar uma elite insaciável, a celebração dos 50 anos será sempre uma festa amarga, um lembrete doloroso de um sonho que, para a maioria, ainda não saiu do papel.
