Conta Geral de 2024: A Ilusão dos Biliões e a Realidade no Bolso do Cidadão

Conta Geral de 2024: A Ilusão dos Biliões e a Realidade no Bolso do Cidadão

LUANDA 30 de Setembro – Enquanto o Ministério das Finanças celebra os números da Conta Geral do Estado (CGE) de 2024 como um triunfo fiscal, uma análise mais profunda dos dados e da conjuntura socioeconómica revela uma narrativa bem menos otimista. A euforia governamental, ancorada numa receita recorde de 25,31 biliões de Kwanzas, mascara as fragilidades estruturais da economia e ignora uma questão fundamental: se o Estado arrecadou tanto, por que motivo o cidadão comum sentiu tão pouco alívio?

A propaganda oficial destaca o aumento de 40% nas receitas petrolíferas e de 30% nas diamantíferas. No entanto, omite um detalhe crucial: este aumento não resulta de uma gestão económica inovadora ou de uma diversificação bem-sucedida, mas sim da volatilidade favorável dos preços das matérias-primas no mercado internacional em 2024. Celebrar esta receita é celebrar a sorte, não a competência. Pior, é a prova da contínua e perigosa dependência de Angola face a recursos finitos e de preço instável.

O triunfalismo do Governo torna-se ainda mais questionável quando se analisa o lado da despesa e o que os números não dizem. O relatório da CGE é notoriamente silencioso sobre o peso esmagador do serviço da dívida pública. Fontes económicas independentes estimam que uma fatia substancial dessa receita recorde não foi investida em hospitais, escolas ou infraestruturas produtivas, mas sim canalizada diretamente para o pagamento de juros e amortizações de dívidas passadas. “Arrecadar mais para pagar mais dívida não é progresso; é correr para se manter no mesmo lugar”, comenta um economista que prefere o anonimato.

Mas o argumento mais contundente contra a narrativa de sucesso do Governo não está nas planilhas da CGE, mas nas ruas, nos mercados e nos lares angolanos. O ano de 2024 foi marcado por uma inflação persistente que corroeu o poder de compra, por um desemprego jovem alarmante e pela degradação contínua dos serviços públicos. O cidadão que enfrentou a alta do custo de vida e a falta de medicamentos nos hospitais questiona-se: onde foram parar esses 25,31 biliões de Kwanzas?

A despesa executada de 24,59 biliões de Kwanzas também levanta sérias dúvidas quanto à sua qualidade e transparência. Sem um escrutínio rigoroso sobre a alocação destes fundos, a CGE corre o risco de ser apenas um exercício de contabilidade criativa, que legitima gastos supérfluos e oculta a ineficiência e a corrupção que continuam a drenar os recursos do país.

Em suma, a celebração da Conta Geral do Estado de 2024 parece ser uma perigosa cortina de fumo. Esconde a falta de uma política económica sustentável e aprofunda o abismo entre a riqueza macroeconómica do Estado e a pobreza microeconómica dos seus cidadãos. O verdadeiro sucesso económico não se mede nos biliões arrecadados, mas na qualidade de vida da população. E, a julgar pela realidade de 2024, essa é uma conta que, para o Governo, ainda não fecha.