INTERVENÇÃO DE SUA EXCELÊNCIA JOÃO MANUEL
GONÇALVES LOURENÇO, PRESIDENTE DA REPÚBLICA
DE ANGOLA, NO EVENTO DE ALTO NÍVEL SOBRE
A TERCEIRA DÉCADA DE DESENVOLVIMENTO
INDUSTRIAL DE ÁFRICA IDDA IV
Nova Iorque, 24 de Setembro de 2025
Excelentíssimo Senhor Gerd Müller, Director da Organização das Nações Unidas
para o Desenvolvimento Industrial;
Minhas Senhoras, Meus Senhores.
Foi com profunda honra que aceitamos o convite que nos foi endereçado pelo Director
Geral da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, Sua
Excelência Gerd Müller, e pelo Presidente da Comissão da União Africana, Sua Excelência
Mahamoud Ali Youssouf, para proferir este discurso de abertura no Evento Paralelo de
Alto Nível para a Promoção e Advocacia da Quarta Década de Desenvolvimento Industrial
para África, IDDA IV, que decorre em paralelo com a 80ª Sessão da Assembleia Geral das
Nações Unidas.
A Terceira Década para o Desenvolvimento Industrial de África, que foi proclamada em
Julho de 2016 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, terminou este ano e é natural
que, no âmbito desta reunião de Alto Nível, procuremos fazer reflexões que ajudem a
projectar iniciativas para os próximos dez anos, em que fiquem reflectidas as mesmas
preocupações da União Africana, destinadas a acelerar o desenvolvimento industrial de
África.
Devo recordar aqui com um grande apreço que, na sua elaboração, o IDDA integrou a
Declaração sobre a criação da Zona de Comércio Livre Continental Africana, ZCLCA, que
se tornou já num dos marcos mais emblemáticos do nosso percurso comum.
Hoje, com a adesão de 54 países e a racificação por 49 Estados, a ZCLCA representa o
maior espaço de comércio livre desde a criação da Organização Mundial do Comércio,
sendo importante considerar-se que a sua implementação tem potencial para aumentar
o comércio intra-africano entre 15% a 25%, criando maiores oportunidades de
exportação, maior valor acrescentado industrial e serviços diversificados.
Excelências,
A experiência acumulada durante a Primeira e a Segunda Década do Desenvolvimento
Industrial para África, respectivamente 1980-1990 e 1993-2002, demonstrou-nos que a
industrialização é condição indispensável para a autossuficiência e autossustentação.
Essa herança histórica, somada à experiência da IDDA III, mostrou-nos também que sem
infra-estruturas adequadas, sem inovação tecnológica e sem cadeias de valor integradas,
não poderemos alcançar os objectivos de desenvolvimento sustentável, nem a
transformação estrutural que ambicionamos.
É oportuno realçar que a Agenda 2063 reconhece claramente a industrialização como
motor estratégico da transformação africana assente em pilares como a agroindústria,
as PME, o sector privado, as cadeias de valor regionais, a economia verde e a
produtividade.
O Programa Abrangente de Desenvolvimento Agrícola de África CAADP, lançado em 2003
e reafirmado em 2014, e o exemplo de como a agricultura, que representa ainda 17% do PIB do continente e garante emprego a cerca de 50% da população da África Subsariana,
deve estar ligada à industrialização.
Apesar disso, o comércio agroalimentar intra-africano permanece de alguma forma
incipiente, sobretudo por comparação com outros continentes, o que traz à evidência a
importância da industrialização como chave para desbloquear todo o potencial do sector
agrícola e transformá-lo em cadeias de valor regionais fortes.
O tema que nos reúne hoje – “Acelerar a Industrialização de Africa: Mobilização de Alto
Nível para o IDDA IV” – é um apelo à acção imediata, pois não podemos esperar mais uma
geração para fazer da industrialização africana uma realidade, que só se tornará notória
se agirmos todos com vontade política firme, susceptível de garantir estabilidade e
confiança, se expressa ao mais alto nível.
É imperioso reconhecer que é indispensável mobilizar-se financiamento inovador,
incluindo fundos de capital de risco, títulos de desenvolvimento sustentável e parcerias
público-privadas eficazes, associando-se a tudo isso a capacitação técnica e tecnológica
do capital humano, principalmente dos jovens, para que se tornem capazes de assumir a
liderança da revolução digital e energética, num contexto em que teremos que promover
a integração regional efectiva, capaz de transformar o mercado africano num espaço
competitivo, dinâmico e interligado.
Excelências,
Permitam-me, neste ponto, referir a experiência de Angola, onde mantemos uma
cooperação de longa data com a ONUDI, consubstanciada no Programa-Quadro celebrado
em 2016, centrado no apoio à diversificação económica e no Objectivo de Desenvolvimento
Sustentável n.° 9, que visa construir infra-estruturas resilientes, promover a
industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação. Não obstante as limitações na execução plena do Programa, dele resultaram iniciativas
importantes, como a criação de Parques Industriais Rurais e programas de Substituição
de Importações e Promoção das Exportações, que aumentaram a capacidade de produção
nacional.
Estamos igualmente a investir em infra-estruturas estratégicas como o Corredor do
Lobito, que conecta o Atlântico ao interior do continente e ao mundo, e a expandir zonas
industriais e cadeias de valor globais, acções que potenciam Angola como plataforma
logística e placa giratória de transformação regional.
Neste quadro, quero sublinhar a realização em Outubro próximo, em Luanda, da Cimeira
sobre Financiamento de Infra-estruturas como Factor de Desenvolvimento de África,
iniciativa lançada por Angola em Fevereiro deste ano em Adis Abeba, que se poderá
constituir num momento crucial para alinhar investimentos estratégicos e consolidar
parcerias regionais e internacionais, funcionando como prolongamento natural desta
mobilização de alto nível que hoje iniciamos aqui em Nova Iorque.
Excelências,
A industrialização africana não é apenas uma opção estratégica, mas sim uma condição
essencial para assegurar prosperidade, integração regional e soberania económica dos
países do nosso continente que, para ser duradoura, deve alinhar-se com os Objectivos
de Desenvolvimento Sustentável, garantindo que o progresso económico caminhe de
mãos dadas com a justiça social e a preservação ambiental.
O futuro de África, com mais de 1,4 mil milhões de cidadãos, está assegurado com a
industrialização do continente, que é o caminho a ser percorrido para se oferecer
empregos dignos à juventude, empoderar as mulheres no centro da produção e da inovação e posicionar o continente no coração da economia do conhecimento e da
transição energética.
É com esta confiança e com esta determinação que Angola reafirma o seu compromisso
em trabalhar lado a lado com a União Africana, com as Nações Unidas, com os bancos de
desenvolvimento, com o sector privado e com a sociedade civil, estando empenhada, no
concerto das nações africanas, em assumir responsabilidades, criar sinergias e mobilizar
recursos que transformem esta visão numa realidade.
Muito obrigado.
SECRETARIA DE IMPRENSA | PALÁCIO PRESIDENCIAL em Luanda, 24 de Setembro de 2025
