O diretor da Escola de Futebol Acácias Rubras, em Benguela, Feliciano Rasgado, defende que o relançamento do futebol angolano passa obrigatoriamente pelo investimento sério e contínuo na formação de base. Para o gestor, persiste no país uma cultura desportiva focada quase exclusivamente na alta competição, ignorando os escalões de iniciação, o que tem comprometido a evolução do desporto rei em Angola.
Segundo Rasgado, a estrutura atual compromete o desenvolvimento natural do atleta. “No futebol, tal como em qualquer ciência, começa-se da base para o topo. O que temos feito é o contrário, e por isso enfrentamos fragilidades quando competimos com países que estruturam bem a formação”, afirmou. Criticou ainda o hábito de selecionar jogadores apenas em Luanda quando surge a necessidade de formar seleções jovens, como se o talento nacional estivesse limitado à capital.
O dirigente destacou o exemplo de Cabo Verde, país cuja qualificação histórica ao Mundial foi sustentada por atletas formados desde cedo, sobretudo em academias europeias. Para Rasgado, o apuramento de Angola ao Mundial de 2006 foi um episódio isolado: “Gostaríamos de regressar ao Mundial por mérito, mas enquanto ignorarmos a base, será impossível.”
Como solução, propõe a identificação anual de jovens com elevada aptidão futebolística em todas as províncias e o envio destes para centros de formação no estrangeiro, como o Brasil, enquanto o país investe internamente em infraestruturas e métodos. Defende também que as competições nacionais devem ter categorias estruturadas e funcionamento regular, evitando a criação apressada de seleções apenas quando surgem torneios.
Com 120 atletas distribuídos entre infantis, iniciados e juvenis, a Escola Acácias Rubras tem procurado dar resposta à carência estrutural do país. Além da prática desportiva, a instituição desenvolve ações sociais, incluindo apoio documental. “Já tratei mais de cinco mil bilhetes de identidade para alunos que chegavam sem documentos”, realçou. O projeto já licenciou 32 jogadores desde a fundação, em 2008.
Rasgado defende uma intervenção mais robusta do Estado no desenvolvimento do futebol, assumindo plena responsabilidade sobre a alta competição e o fomento da base. Reforça que, sem esta mudança, o país continuará distante dos resultados desejados. “Não se pode ter dois sem ter um. O futebol precisa começar do zero, com uma base sólida”, concluiu.
Formação como chave para o futuro do futebol angolano
