O Ministério da Saúde de Angola, peça central na garantia do bem-estar dos cidadãos, apresenta hoje um colapso funcional cuja imagem mais crua é a de um hospital público de portas abertas, mas vazio de capacidade para salvar vidas. A crise de escassez de materiais e medicamentos transcende a mera falha logística; é o testemunho de uma falência de gestão onde o direito constitucional à saúde se torna uma quimera para a maioria. A Fotografia da Crise: Falência ao Nível Básico o choque reside na natureza dos itens em falta: Gesso e Fios de Sutura: Materiais que definem a capacidade básica de realizar pequenas cirurgias e imobilizações. A ausência destes significa que acidentes simples podem ter consequências graves, e feridas não são devidamente fechadas, expondo doentes a infeções e complicações. Medicamentos Essenciais: A falta de fármacos para doenças comuns ou crónicas transforma tratamentos de rotina em sentenças de sofrimento ou morte.Cadernos Materno-Infantis: A carência de registos básicos para mães e bebés compromete o rastreio e o acompanhamento, pilares da saúde preventiva, expondo a fragilidade na proteção dos grupos mais vulneráveis da sociedade. A repetição deste cenário por meses sugere que o problema não é uma emergência isolada, mas sim a normalidade de um sistema inoperante. Os Sintomas da Ineficácia Estrutural O colapso funcional do Ministério da Saúde pode ser analisado pelos seguintes fatores críticos, amplamente denunciados: Orçamento e Gestão Deficiente desvio dos fundos: Prioridade Invertida: Em vez de priorizar a saúde pública, os recursos disponíveis parecem perder-se em burocracia, ineficiência ou corrupção, deixando os hospitais sem dinheiro para as compras mais elementares.Contraste Cínico: A inconstância dos stocks choca com as notícias sobre a inauguração de infraestruturas modernas, mas vazias de meios. De que servem edifícios de ponta se falta o básico para o diagnóstico e tratamento? O Profissional de Saúde Desarmado: Os médicos e enfermeiros, formados para salvar vidas, são forçados a trabalhar num ambiente de guerra, sem as “armas” necessárias (luvas, seringas, medicamentos). A sua ética profissional é testada ao limite quando se veem obrigados a assistir à deterioração dos pacientes por inação forçada. A “Solução” Ilegal e Imoral:A exigência de que os doentes procurem farmácias privadas ou o mercado informal para obter material para o seu próprio tratamento representa a mais dura capitulação do Estado Social. A saúde, paga com dinheiro próprio, transforma-se num bem transacionável, e a doença, para os mais pobres, torna-se uma dívida impagável. Conclusão Crítica: A Urgência da IntervençãoEste retrato chocante é um alerta de que o direito à saúde em Angola não está a ser apenas negligenciado; está, na prática, suspenso. A situação exige uma intervenção política e administrativa imediata e transparente, focada na gestão rigorosa das aquisições e na fiscalização das unidades de saúde. É imperativo que o Governo Angolano demonstre que as vidas dos seus cidadãos valem mais do que os entraves burocráticos e as falhas de gestão que, hoje, transformam hospitais em meros hospices por falta de um rolo de gesso ou de um fio de sutura.
Silvia Lutucuta afunda Ministério da Saúde em Angola
