Medalhas de Brinquedo: Quando o Mérito Perde a Honra em Angola

Medalhas de Brinquedo: Quando o Mérito Perde a Honra em Angola

INADE - Inade - 50º Aniversário da Independência Nacional

 

ANÁLISE DE OPINIÃO — Em tese, as condecorações de um país deveriam ser como joias raras, reservadas a poucos cujas vidas e feitos moldaram a nação.

Mas, em Angola, a prática transformou-se em uma farsa. A concessão indiscriminada de medalhas pelo 50º aniversário da Independência não é um tributo à glória, mas uma demonstração de como a honra e o mérito foram desvalorizados.

O que se esperava ser um reconhecimento solene para heróis de guerra, construtores da nação ou figuras de imensa relevância, tornou-se uma distribuição de “brindes de supermercado”.

O critério de condecoração parece ter menos a ver com a dedicação à pátria e mais com a proximidade ao poder.

Essa banalização não apenas ofende os verdadeiros merecedores, mas também corrói a integridade das instituições que deveriam zelar por valores como o sacrifício e a excelência.

A ironia é que, enquanto o poder premia a conveniência, os verdadeiros heróis de Angola são esquecidos.

O povo, que enfrenta diariamente o caos do transporte, a precariedade dos serviços de saúde e a luta por um salário que mal sustenta, demonstra uma resiliência digna de ouro.

Cada angolano que resiste às adversidades do cotidiano sem desmoronar, esse sim, personifica o heroísmo.

A distribuição de medalhas surge, neste contexto, como uma tentativa de polir a imagem pública de um governo que enfrenta crescente desconfiança popular.

É uma estratégia superficial, um verniz que tenta dar brilho a uma reputação “mais fosca que panela velha”.

Mas a história nos ensina que a honra não pode ser comprada nem distribuída como pão em tempo de fome.

Onde o mérito é de todos, não é de ninguém.

A verdadeira homenagem que o Presidente poderia fazer ao povo de Angola seria a de reconhecer o seu heroísmo diário com ações concretas, e não com símbolos vazios.

Até que isso aconteça, as medalhas de Angola continuarão a ser como cromos repetidos, trocados sem valor em um pátio que, lamentavelmente, se chama nação.

Por: Horácio dos Reis, Jornalista