Tribunal Supremo investiga decisões do juiz António José Eduardo da Comarca de Viana por alegados vícios

Tribunal Supremo investiga decisões do juiz António José Eduardo da Comarca de Viana por alegados vícios

Tribunal Supremo investiga decisões do juiz António José Eduardo da Comarca de Viana por alegados vícios

LUANDA — O Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) solicitou dois processos recentemente julgados pelo juiz da Comarca de Viana, António José Eduardo, com o objetivo de investigar decisões judiciais sob suspeita de alegados vícios. Os casos, de elevada repercussão pública, envolvem crimes de homicídio e resultaram em sentenças favoráveis aos réus.

Caso Black Star

Na última semana, o juiz António José Eduardo, proveniente do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e com cerca de dois anos de exercício nos tribunais, condenou José Evandro, de 33 anos, ao pagamento de uma indemnização de 33 milhões de kwanzas à família de dois irmãos atropelados mortalmente à saída da discoteca Black Star, em Luanda, no dia 1 de janeiro de 2018.

O magistrado absolveu o arguido do crime de homicídio doloso, entendendo não existir intenção de matar, convertendo a acusação para homicídio involuntário por negligência. A decisão causou indignação entre os familiares das vítimas, que classificaram a sentença como “escandalosa”.

De acordo com os autos, após um desentendimento durante a passagem de ano, o arguido — amigo das vítimas — entrou na sua viatura, um Toyota Prado, e atropelou os irmãos Edir e Célio Gonçalves, provocando a morte imediata de um deles e, meses depois, do outro.

O tribunal considerou que o ato não teve intenção homicida. A pena aplicada foi suspensa, ficando o arguido obrigado apenas ao pagamento da indemnização.

Segundo caso

O segundo processo envolve um efetivo do SIC, identificado como Edson Evaristo, julgado no processo n.º 469/22, Letra B, por crime de homicídio ocorrido em 2022.

A vítima, Cambila Agostinho, conhecido por “Careca”, então com 34 anos, era suspeito de furtar uma ficha da Angofoot pertencente a um amigo, avaliada em 45 mil kwanzas. Após ser imobilizado, foi conduzido a uma esquadra no município de Viana.

Segundo relatos constantes do processo, efectivos do SIC terão agredido violentamente a vítima, deixando-a em estado crítico. Entre os atos descritos constam agressões repetidas nos órgãos genitais com uma pistola, tentativas de arrancar dentes e a introdução de um objeto aquecido no ânus, provocando ferimentos graves que levaram à morte dias depois.

Apesar da gravidade dos factos, o juiz António José Eduardo condenou o arguido a um ano e seis meses de prisão com pena suspensa, além do pagamento de uma indemnização de cerca de oito milhões de kwanzas.

Acusações de parcialidade e pedido de perdão em tribunal

Em outro processo recente, o juiz da 17.ª Secção dos Crimes Comuns do Tribunal da Comarca de Viana foi acusado de parcialidade na condução de um julgamento envolvendo a disputa patrimonial entre dois empresários portugueses, Carlos Alberto (queixoso) e José Vieira (arguido).

A defesa alegou que o magistrado teria tomado partido antes mesmo da leitura da sentença. Durante uma audiência anterior, o juiz chegou a afirmar que o arguido e o seu trabalhador estariam a mentir, quando relataram supostas ameaças feitas por uma oficial do SIC, Ana Bela Teodoro, durante a fase de instrução do processo.

Diante das críticas, António José Eduardo reconheceu em sessão pública ter exagerado na sua atuação. “Se exagerei, peço perdão”, declarou o magistrado em tribunal.

Fontes do meio judicial apontam a sua anterior ligação ao Serviço de Investigação Criminal como um fator de condicionamento nas decisões, sobretudo em processos que envolvem efectivos do SIC, nos quais o juiz seria acusado de beneficiar antigos colegas.