SONANGOL FINANCIA O ESTRANGEIRO E MARGINALIZA A CULTURA ANGOLANA
A decisão da Sonangol de canalizar cerca de 4 biliões de kwanzas para festas institucionais entregues a interesses estrangeiros, com destaque para a importação de bailarinas brasileiras, não é apenas um erro de gestão cultural. É um ato de desprezo simbólico pelos homens e mulheres que constroem, todos os dias, a cultura angolana.
Num país onde artistas vivem na precariedade, grupos culturais sobrevivem sem apoio e criadores nacionais são sistematicamente ignorados, a opção por financiar espetáculos com forte presença estrangeira revela uma lógica perversa: o dinheiro público não serve o povo, serve vitrines. Vitrines vazias de identidade nacional.
A cultura angolana não é insuficiente, nem incapaz, nem menor. O que é insuficiente é a visão de quem decide. Angola tem bailarinos, músicos, coreógrafos, encenadores e produtores culturais com competência comprovada para realizar eventos de grande escala, com qualidade técnica e autenticidade. Ignorá-los não é acaso — é escolha política.
Não se trata de xenofobia nem de fechamento cultural. Trata-se de prioridade nacional. Quando uma empresa do Estado escolhe gastar biliões com estrangeiros, enquanto os criadores nacionais continuam excluídos dos grandes contratos, o recado é claro: a cultura angolana não conta.
A Sonangol não é uma empresa privada qualquer. É património do Estado, sustentada por recursos que pertencem a todos os angolanos. Por isso, tem uma responsabilidade acrescida. Cada kwanza gasto deveria refletir compromisso com o desenvolvimento interno, com a economia criativa nacional e com a dignidade cultural do país.
O que está em causa não são apenas festas. Está em causa o modelo de país que se quer construir. Um país que investe em si próprio ou um país que financia o brilho alheio enquanto apaga a própria identidade?
Enquanto homens e mulheres da cultura angolana forem empurrados para a margem, decisões como esta continuarão a ser vistas como aquilo que são: um desperdício de recursos públicos e uma traição silenciosa à cultura nacional.
Defender a cultura angolana não é opcional. É um dever. E quem ignora esse dever deve ser responsabilizado — politicamente, moralmente e publicamente.
