A afluência diária de vários camiões cisternas às centenas de girafas espalhadas por esta Luanda fora, a partir das primeiras horas da madrugada,espelha claramente o insuficiente e gritante abastecimento de água por parte da Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL).
A triste realidade alegra em primeiro lugar os donos das cisternas, maioritariamente cidadãos chineses, que retiram o líquido do canal do Kikuxi a custo zero,e em segundo, os revendedores que chegam a
quintuplicar o preço junto do consumidor final.
Interlocutores, que falaram para a reportagem do semanário Pungo a Ndongo afirmaram, sem medo de errar, que o deficiente abastecimento de água por parte da EPAL é premeditado, tudo para facilitar o negócio das girafas, maioritariamente detidas por chineses, assim como da própria EPAL.
Engracia Firmino, moradora do bairro da Sanzala, em Viana, não encontra nenhuma justificação para comprar mensalmente uma cisterna de água, quando a sua casa dista a menos de três quilômetros da estação de tratamento e abastecimento do Kikuxi.
O ancião Casimiro Fuchi, vizinho de Engraecia, diz que a situação é a todos os níveis inconcebível ter que fazer, tal como acontece na compra de cochas e outros frescos, sócia para adquirir uma cisterna de 10 mil litros ao preço de 8 mil kwanzas. “Este negócio está nas mãos de muitos dirigentes da EPAL”, afirma o ancião reformado e que conta com aquilo que chama por “tostões” que recebe da reforma.
Chineses à frente
A totalidade de girafas, mega estruturas com mais de seis pontos de abastecimentos, no canal do Kikuxi, no número de oito, uns instalados nas quintas, outros à vista, são pertencentes a cidadãos chineses. Uma das maiores girafas da cidade de Luanda, estando somente atrás da do Kifangondo, foi instalada há pouco tempo na entrada do canal do Kikuxi, na localidade da Refriango, exactamente em frente ao BIC.
Os estragos causados no asfalto da via alternativa que dá ao desvio do Zango, são visíveis, aliás a via está a receber obras de reparação do asfalto que foi recentemente posto,tudo por conta dos estragos das cisternas.
Ante a exposição desta mega girafa, bem em frente a uma via principal, a avenida Fidel de Castro, a reposição da legalidade é impedida, porque diz-se, a boca pequena, que o empreendimento é de um ‘peixe graúdo’que se associou ao chinês, dono dos equipamentos e garante todo o apoio.
Kifangondo, o rei
A girafa do Kifangondo, instalada exactamente na margem do rio com o mesmo
nome, defronte ao controlo da polícia, é a maior de todas, pelo menos no domínio do nosso conhecimento. Tem a capacidade para abastecer oito cisternas em simultâneo.
Um, dois, três camiões perfilados, um ao lado do outro.
A água potável é vendida aos camiões cisternas a uma taxa de 350 kwanzas
Os distribuidores vendem o camião de 10 mil litros a 7.500 kwanzas, de 20 mil litros a 12.500 kwanzas, um preço que pode variar em função da distância. Por exemplo, do Kikuxi ao Ramiros, no município de Belas, a cisterna de dez mil litros pode custar entre 30 mil kwanzas a 37 mil kwanzas, chegando mesmo a 40 ml kwanzas nos momentos de crise.
Os jovens angariadores de clientes e que canalizam os camionistas aos chineses dizem que a vantagem das cisternas dos expatriados é que trabalham 24 horas por dia, ao passo que os angolanos, localizados na outra margem do rio e que vendem água bruta,
só trabalham de dia.
‘Homem da cisterna’
José Malamba, há 17 anos ao volante de camiões cisternas, já num total de seis, diz que o fim do negócio da venda de água com recurso a cisternas está distante.
Justifica a sua afirmação primeiro, pela incapacidade de a EPAL levar água até onde os camiões chegam. A outra razão e a mais justificável tem a ver com o facto de estarem envolvidos neste negócio muitos barões da EPAL.
Malamba compara o negócio de água com o contrabando de combustíveis e com transação da droga, com a diferença de os dois últimos serem proibidos e condenados segundo a lei.
Sem controlo
A nossa reportagem apurou de fonte ligada à EPAL, responsável pela gestão do precioso líquido na capital que não existe nenhum controlo actual do número de girafas privadas em funcionamento, depois de esta assumir a gestão de 12 destes pontos em 2020.
Passados cinco anos desde a data do anúncio para o total controlo por aquela empresa pública dos pontos de venda de água, pessoas privadas não arredam o pé no negócio lucrativo de abastecimento de cisternas.
Existem pelo menos 7 girafas sob gestão privada a funcionar e todas sob gestão de cidadãos chineses. Duas estão no canal do Kikuxi, uma no Calumbo, na província de Icolo e Bengo e as restantes no Kifangondo em Cacuaco.
Essas atendem diariamente, perto de 80 camiões com capacidade entre 10 mil a 45 mil litros cada.
Razão do problema
A falta de água canalizada em muitas áreas da capital, quer em bairros antigos, assim como em novos, impulsiona a procura pelo precioso líquido em cisternas, tornando o negócio lucrativo para quem gere, sobretudo para os comerciantes a granel e revenda a preços especulativos.
Os preços praticados no comércio de água em cisternas são elevados, especialmente
em áreas onde o acesso à água canalizada é limitado e com vias de acesso degradadas.
O comércio de água em cisternas opera sem a devida regulação, o que pode levar a práticas abusivas e preços excessivos, concorrendo assim com a EPAL que tem preços mais baixos por metro cubico.
Os preços variam entre 10 mil kwanzas e 15 mil kwanzas nas girafas privadas, enquanto a EPAL vende o metro cúbico a 294 kwanza,mas poderá sofrer alteração em função da nova tabela aprovada pelo Executivo.
Já os camionistas que revendem as cisternas com margens de lucros muito altas, chegando a quadruplicar ou a quintuplicar os preços, sem qualquer regulação.
Um dado apurado pela nossa reportagem dá conta de muitas girafas que estavam sob controlo de alguns privados passaram para a gestão de alguns trabalhadores daquela empresa pública.
António Mayano, um dos responsáveis da ‘girafa do Kikuxi’, garantiu a nossa reportagem que os vendedores de água em camiões cisternas arrecadam em média 1,3 milhões de kwanzas por mês.
Pedro Caterça, vendedor de água em cisternas, manifesta-se contra o novo plano tarifário aprovado recentemente pelo Executivo,sobre o ajuste da tarifa de água. Embora não esteja ainda em vigor indica que quando o fizerem, as coisas serão mais complicadas do que já se encontram.
“Compro 20 mil litros de água a 6.500 kwanzas, no Centro de distribuição do Kikuxi, e os comercializo a 30 mil kwanzas”, disse, acrescentando, que na maioria das vezes, compra o produto três vezes ao dia. E também faz a entrega, por imperativo contratual de 40 mil kwanzas mensais ao proprietário do camião.
A semelhança de Caterça, João André, cujos sábados são exclusivamente reservados para si, confessa que hoje já não vende água na vila de Viana, no bairro Palanca, Cazenga, Cassequel, Tourada, Madeira por detrás do Jumbo, porque já há água canalizada em quase todas as residências.
Sublinha que para ele o negócio já foi melhor, quando em quase todos os bairros do Cazenga, Rangel, Sambizanga, Boavista, Kilamba Kiaxi, Alvalade, Neves Bendinha não havia água corrente. “Hoje já é meio complicado”, sustenta.
Embora o fornecimento de água continue deficitário, na capital, as zonas mais atractivas para os operadores são o Cacuaco, Ramiro, Barra do Kwanza, Parapeito, Jacaré, Tanque Serra, Benfica 2, Padaria das Eleições,
África do Sul, Futungo de Belas, Morro Bento, Samba, Viana, Kissama e os municípios de
Icolo e Bengo.
Água rara
O programa água para todos foi criado em Junho de 2007, através da resolução do Conselho de Ministros n.º58/07, com o objectivo de assegurar o abastecimento de água a 80 por cento da população rural de Angola.
O programa acabou também reforçado no manifesto eleitoral do MPLA nas campanhas eleitorais de 2008 e 2012, em que prometeu ‘’assegurar níveis de cobertura de até 100 por cento nas zonas urbanas e de até 80 por cento nas zonas rurais’’, além de ‘’assegurar a monitorização efectiva da qualidade da água para garantir um alto padrão no abastecimento voltado para o consumo humano’’.
Passados, 18 anos, o abastecimento de água contínua a ser um problema em toda a extensão do país e na capital, onde os municípios de Viana, Cazenga, Kilamba Kiaxi, Mussulo e Belas são os mais afectados. Mas até condomínios de luxo no Talatona e nas novas urbanizações são forçados a recorrer às cisternas,
por causa do fraco abastecimento e das vandalizações nas condutas.
Acesso
Para ter acesso a uma girafa gerida por funcionários da EPAL, Agostinho Soares conta que
as viaturas devem ser validadas pelo gestor,com condições técnicas e de salubridade, assim como possuir a documentação em conformidade com as regras de trânsito.
Aquele responsável, que gere a girafa que se encontra na zona do Kikuxi junto a uma das subestações da empresa pública, alega que fazem a cobrança no local, “porque o nosso TPA não está operacional.
Isso só agora.
Mas se pretende mais informações vão a outra ‘girafa’ que se encontra junto às instalações da
Polícia de Objectivos Estratégicos”, disse.
No local indicado, encontramos Ambriz Madeira, com um TPA e contrariou a informação
do colega, adiantando que não recebem dinheiro em mão. “Nós aqui recebemos valores com pagamento automático.
Em mão, não aceitamos.
Todo o nosso trabalho é legal e não infringimos a lei”, esclareceu, não tendo aceite
dar mais dados, aconselhando contactar à direcção da EPAL.
Em Luanda, existem 12 girafas da EPAL, designadamente, no Porto de Luanda, Prumo (no Kikuxi), Calumbo, Mulenvos, Limiary, AMILG (Cacuaco), Edith Nacaputo e Mfuluma (Benfica), Arnaldo Borges (Patriota), Acywo e Simoss (Talatona), Team Líder (Camama e a do PIV (Icolo e Bengo).

