Um Fundador da Guarda de Neto Vive com “Subsídio de Miséria” e Denuncia o Abandono dos Antigos Combatentes
LUANDA – A história da luta pela independência de Angola está repleta de heróis anónimos, mas nem todos desfrutam do reconhecimento e do apoio que merecem. É o que revela o tenente Gomes Pontes da Silva, um dos fundadores da Unidade de Guarda Presidencial (UGP), que hoje vive com um subsídio de “míseros 57 mil kwanzas” e sem uma reforma oficial.
Em uma entrevista reveladora, o tenente, que ajudou a criar a unidade em fevereiro de 1976, lamenta o abandono a que ele e os seus colegas foram relegados. “Para quem ajudou a libertar este país é muito grave. Passei a minha juventude a lutar pela estabilidade de Angola para receber um subsídio de miséria”, desabafou Gomes da Silva, que completa 80 anos em dezembro.
A sua denúncia não para por aí. Gomes da Silva afirma que muitos dos seus antigos companheiros já morreram por “falta de apoio condigno”. A situação, segundo ele, piorou, e as promessas de apoio nunca se concretizaram. O tenente recordou que, durante o mandato do ex-presidente José Eduardo dos Santos, o general Kopelipa, então Chefe da Casa Militar, foi incumbido de garantir moradia para os militares que fundaram a UGP, com a promessa de apartamentos na Centralidade do Kilamba. Uma promessa que, na sua palavra, foi “fintada”. “Hoje boa parte daqueles que foram guardas de Neto não têm casa, nem um meio de transporte”, criticou.
O tenente fez um apelo direto ao atual presidente, João Lourenço, mas, como no passado, “nada colhemos ainda”. O seu clamor é por reconhecimento e justiça para todos os que deram a vida pela pátria.
Além de sua própria situação, Gomes da Silva expressou profunda preocupação com a nova geração angolana. Ele alertou que os jovens estão “mais preocupados no saque do erário e transferirem montantes para a Europa”, em vez de se dedicarem à preservação dos ganhos da paz. “Se isso não se acautela, no futuro próximo quem vai mandar em Angola serão mesmo os estrangeiros”, advertiu.
A sua trajetória de vida é um retrato da história recente de Angola. Aos 16 anos, ele fugiu da perseguição da PIDE-DGS, juntando-se à luta nas matas. Ele relembrou episódios como a fuga de militares da FNLA em 1974, que o obrigou a se refugiar nas matas por dois anos, até ser resgatado por uma coluna de cubanos. Foi essa aliança que o levou a integrar as FAPLA e, posteriormente, a Guarda Presidencial em Luanda.
A história de Gomes Pontes da Silva ecoa a realidade de muitos ex-combatentes que, após anos de sacrifício, se veem esquecidos pelo país que ajudaram a construir. O seu desabafo é um alerta sobre a necessidade de um olhar mais atento para aqueles que garantiram a estabilidade e a paz em Angola.
