Kilamba Kiaxi: A Cortina de Fumo e o Labirinto da Administração
No centro do furacão está a Administradora Municipal, Naulila André, cuja gestão da emblemática “Cidade dos Motores” se transformou num caso que mistura polícia, política e suspeitas de dissimulação perante as instâncias superiores do Estado.
A investigação tornada pública pelo semanário Pungo a Ndongo levanta um véu inquietante sobre os reais motivos que conduziram ao encerramento daquele que era um dos principais polos económicos informais do município.
A narrativa oficial sustentava a existência de uma alegada rede de tráfico de drogas. Contudo, o castelo de cartas começa a ruir quando fontes do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmam a inexistência de apreensões de estupefacientes ou detenções que sustentem essa versão.
Tudo indica que a tutela poderá ter sido induzida em erro. Enquanto a administração municipal se concentra em “caças às bruxas” e em processos-crime contra jornalistas — uma manobra clássica de intimidação —, os comerciantes denunciam esquemas de extorsão e cobranças paralelas fora dos canais oficiais do Estado.
O encerramento da Cidade dos Motores não é apenas um problema logístico. É o sintoma de uma gestão que aparenta privilegiar o controlo político-administrativo em detrimento da legalidade e da transparência.
Se a justificação do narcotráfico tiver sido fabricada para camuflar interesses inconfessáveis ou má gestão de receitas, estaremos perante uma grave quebra de confiança institucional, com impactos diretos na imagem do Estado e no ambiente de negócios.
Num momento em que Angola procura atrair investimento e reforçar a credibilidade das suas instituições, o caso do Kilamba Kiaxi deve servir de alerta. Cortinas de fumo não podem substituir a verdade administrativa.
A realidade da Cidade dos Motores precisa de vir à tona, sem filtros nem intimidações, para que a governação local não se torne refém de agendas particulares travestidas de interesse público.
