MAKAMAVULO INVESTIGAÇÃO
VENDA DOS HOTÉIS DE SÃO VICENTE LEVANTA DÚVIDAS: QUEM ESTÁ A COMPRAR OS ACTIVOS DO ESTADO?
Falta de transparência no processo de alienação da rede hoteleira apreendida ao empresário Carlos São Vicente levanta suspeitas sobre quem está a beneficiar dos activos recuperados pelo Estado angolano.
Luanda — A tentativa do Governo angolano de alienar os hotéis pertencentes ao empresário Carlos São Vicente voltou ao centro do debate público depois de o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, admitir que o Executivo falhou por duas vezes a venda da rede de hotéis AAA.
O governante falava em Portugal, durante a conferência “Radar África”, organizada pelo jornal português Jornal de Negócios, onde explicou que, após duas tentativas falhadas de venda, o Governo decidiu mudar a estratégia, passando a disponibilizar os hotéis através de modelos de concessão e exploração.
Apesar disso, Massano admitiu que os investidores interessados continuam a poder adquirir as unidades hoteleiras, deixando em aberto a possibilidade de venda directa.
Os hotéis pertenciam ao empresário Carlos São Vicente, condenado em Março de 2022 a nove anos de prisão pelos crimes de peculato, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
As unidades fazem parte das redes IU, IKA e BINA, que foram apreendidas pelo Estado no âmbito do processo judicial.
Ao todo, 43 hotéis foram colocados no mercado, sendo que 15 dessas unidades estão agora na terceira tentativa de venda.
No entanto, apesar de o Governo afirmar que conseguiu vender dez hotéis, permanece uma questão central que até agora não foi respondida publicamente: quem são os compradores?
Até ao momento não foram divulgadas informações detalhadas sobre os investidores que adquiriram estas unidades, nem os critérios utilizados para a sua venda.
Num processo que envolve activos apreendidos ao abrigo de uma política de combate à corrupção, especialistas defendem que deveria existir total transparência sobre os compradores, os valores pagos e as condições de venda.
Sem essa informação, o processo levanta suspeitas de que os activos recuperados pelo Estado possam estar a ser transferidos para novos grupos económicos ligados ao poder político.
Alguns analistas questionam se a política de recuperação de activos não corre o risco de transformar-se numa simples redistribuição de riqueza entre elites, criando uma nova geração de privilegiados económicos no país.
A expressão popular “marimbondos”, utilizada em Angola para designar elites beneficiadas por privilégios económicos, volta assim a surgir no debate público sobre quem realmente está a beneficiar da alienação destes activos.
Para observadores da governação económica, a credibilidade da política anticorrupção depende não apenas da recuperação de bens, mas também da forma como esses bens são posteriormente geridos ou vendidos.
Sem mecanismos claros de escrutínio público, concursos transparentes e divulgação dos beneficiários finais das transacções, processos como este tendem a alimentar desconfiança na gestão do património recuperado pelo Estado.
Enquanto o Governo insiste que procura soluções para tornar os hotéis economicamente viáveis, a falta de informação sobre os compradores continua a alimentar uma pergunta cada vez mais repetida nos meios económicos e políticos do país:
Quem está realmente a comprar os hotéis apreendidos pelo Estado angolano?
