Mas Sustentamos os Que Ficaram
Por : Xiyetu
Em tempos de crise, desvalorização humana e apagamento institucional, torna-se ainda mais urgente dar voz ao desconforto e à indignação de um povo constantemente diminuído pelos que deveriam representá-lo. Quando uma ministra da Educação — precisamente da Educação! — afirma que “aquele que vai para o exterior não faz falta”, ela revela não apenas desprezo por milhares de angolanos no exílio, mas também confessa, sem querer, o fracasso do próprio sistema que deveria cuidar para que ninguém precisasse partir.
Somos milhões espalhados pelo mundo, não por vontade de abandonar Angola, mas por sermos expulsos, calados, ameaçados ou simplesmente ignorados. E mesmo assim, sustentamos. Sustentamos famílias inteiras, mantemos escolas abertas com remessas, ajudamos no tratamento de doenças, financiamos o progresso de comunidades que o Estado abandonou. E fazemos isso longe, à margem, sob o silêncio forçado de quem foi empurrado para fora.
Não fazemos falta? Então por que é que o país sobrevive em parte com a força de quem está longe?
O Canto que Incomoda Não É o do Grilo, É o da Verdade
Há sons que incomodam. O do grilo, por exemplo, insiste nas madrugadas silenciosas. É repetitivo, persistente, quase invisível, mas está lá — e fere o silêncio de quem prefere dormir com os olhos fechados. No entanto, o verdadeiro incômodo não está no canto do grilo, mas na incapacidade de escutar o que ele tenta anunciar: que há vida, que há desconforto, que há verdade.
Assim também foi o discurso da Ministra da Educação, Luísa Grilo. Em tom calmo, quase como quem fala uma obviedade, ela afirmou:
“O bom jovem fica mesmo aqui e faz as críticas para nós melhorarmos o trabalho. Aquele que vai para o exterior, não faz falta.”
É difícil medir o quanto essas palavras são violentas. Para muitos de nós, que deixamos Angola empurrados por uma realidade sem horizontes, elas soam como um insulto travestido de análise. Não, ministra, não fomos embora porque faltou coragem — fomos porque nos tiraram o chão.
A maioria dos jovens que parte carrega em si uma dor que não se exibe: a saudade da terra, da língua, dos rostos familiares, da comida simples. Mas mais do que isso, carrega o trauma de um país que não os acolheu, que os excluiu desde cedo. Um país onde a escola é um privilégio e não um direito; onde os professores, muitas vezes desmotivados e mal pagos, ensinam em salas sem carteiras; onde o ensino é, na prática, uma promessa não cumprida.
E como se não bastasse essa realidade, ouvimos de uma ministra — justamente da Educação — que não fazemos falta. Mas vamos aos factos, então.
Segundo dados recentes:
• 22% das crianças em Angola ainda se encontram fora do sistema de ensino, e 48% das crianças matriculadas não concluem o ensino primário. Apenas 11% das crianças dos 3 aos 5 anos têm acesso à educação pré-escolar.
• Em 2021, o país tinha, praticamente, dois milhões de alunos fora do sistema de ensino, número que representa pelo menos 32% da população em idade escolar.
• Na província de Malanje, mais de 40 mil crianças em idade escolar estão fora das salas de aula devido à inexistência de estabelecimentos de ensino e de professores.
Perante estes números, a pergunta deveria ser: que jovem, em sã consciência, consegue construir uma vida digna nesse cenário? E não estamos a falar de ficção, mas de uma realidade que a senhora ministra conhece — ou deveria conhecer — profundamente.
Muitos jovens saem porque querem viver, estudar, respirar. Saem porque foram ameaçados por denunciar injustiças, perseguidos por pensar diferente, silenciados por exigir o mínimo: dignidade. Alguns, infelizmente, não conseguiram sair a tempo. Foram calados — alguns com a morte.
O mais cruel do seu discurso, ministra, é que ele revela a dor de um regime que não controla os corpos que escapam, nem as ideias que florescem fora do seu domínio. Vocês não temem a fuga — temem a liberdade que ela permite. Porque quem sai do país e encontra outra forma de viver, descobre que aquilo que nos venderam como “normal” era, na verdade, violência institucionalizada.
Ainda assim, muitos de nós que partimos continuamos a colaborar com Angola: sustentamos familiares, pagamos escolas, partilhamos conhecimento, ajudamos projetos sociais. Se não fizéssemos falta, não receberíamos, diariamente, mensagens de quem ainda vive dentro da escuridão pedindo uma mão, uma ponte, um abrigo. Fazemos falta, sim. Talvez não para o conforto de quem governa, mas para o povo que ficou.
A senhora fala de “bons jovens” que ficam. Mas será que ficar é sempre uma escolha? Muitos não partem porque simplesmente não podem. E muitos dos que partem, se pudessem regressar com segurança e dignidade, regressariam no dia seguinte.
Gostaria também de saber: onde estudam os filhos da ministra? Em Angola? São eles que ficam cá para criticar? Ou são os filhos dos dirigentes os primeiros a ir estudar, viver, investir no exterior?
O grilo canta. A sua presença pode parecer incômoda, mas é honesta. Não canta para agradar — canta porque é da sua natureza não se calar. E quem aprende a escutá-lo, entende que há vida mesmo onde reina a escuridão.
Senhora Ministra, o regime do qual a senhora faz parte não consegue controlar os que estão na Diáspora — e é exatamente aí que reside o vosso medo. Nós, fora do país, temos uma visão mais ampla, mais alta, como a de uma águia que observa de cima. Já não estamos limitados à visão estreita que nos impunham, e é por isso que incomodamos.
Estamos a escrever, a falar, a denunciar e, sobretudo, a contribuir de forma significativa para Angola. Fazemos isso com liberdade e consciência, e por isso somos perigosos para quem vive do controle e da manipulação da verdade. Cada vez mais, mesmo aqueles que ainda estão dentro do vosso alcance começam a despertar. O medo que têm de nós não é porque somos muitos — é porque estamos acordados.
Vivemos num mundo global. As fronteiras físicas já não limitam as ideias. Chega de pensar e governar com uma mentalidade fechada, localista, como se fosse possível calar o mundo lá fora. Estamos atentos. E não vamos parar de falar. Porque amamos o nosso país — e amar Angola também é denunciar os que a mantêm cativa.
