“LEI PAKAS”: Álvaro Boavida Neto Questiona — Disciplina Militar ou Censura de Estado?
O debate em torno da chamada “Lei Pakas”, proposta do Governo sobre a Disciplina Militar, ultrapassou os limites técnicos da hierarquia castrense e entrou no coração do regime político angolano. Ao interrogar publicamente o Executivo, o deputado do MPLA Álvaro Boavida Neto expôs uma contradição que inquieta a sociedade: em Angola, só é permitido elogiar o poder?
A pergunta do deputado é direta e desconcertante:
- Os generais e militares só podem fazer comentários positivos sobre o Comandante-em-Chefe e as políticas governamentais?
- Criticar falhas do Governo passou a ser indisciplina?
Estas não são perguntas retóricas. São questões de constitucionalidade.
O que a “Lei Pakas” realmente propõe
A proposta do Governo estabelece que militares, incluindo generais, ficam proibidos de:
- criticar decisões dos seus superiores;
- questionar políticas públicas do Governo;
- emitir opiniões públicas que não estejam alinhadas com o poder político.
Na prática, a lei institucionaliza o elogio e criminaliza a crítica. Não distingue crítica responsável de insubordinação. Coloca tudo no mesmo saco: discordar passa a ser falta disciplinar.
O choque frontal com a Constituição da República de Angola
A Constituição da República de Angola (CRA) é clara:
- Artigo 40.º — Liberdade de expressão e informação;
- Artigo 22.º — Estado democrático de direito;
- Artigo 23.º — Princípio da igualdade;
- Artigo 57.º — Restrições a direitos fundamentais apenas se forem necessárias, proporcionais e não anularem o direito.
A “Lei Pakas” levanta uma questão grave:
Pode uma lei ordinária anular, na prática, a liberdade de expressão de uma categoria inteira de cidadãos?
A resposta constitucional é clara: não pode.
Militares: disciplina não é mordaça
A disciplina militar existe para garantir comando, coesão e eficácia operacional. Mas disciplina não é silêncio forçado, nem submissão política absoluta.
Militares não deixam de ser cidadãos ao vestir a farda. Continuam sujeitos à Constituição — não ao culto da obediência cega.
Transformar a crítica em crime disciplinar cria medo interno, lealdade artificial e ausência de correção de erros. Estados modernos aprenderam que instituições sem crítica interna apodrecem.
Como funcionam as democracias consolidadas
- Estados Unidos: podem criticar políticas públicas, com limites operacionais;
- França: dever de reserva, sem proibição absoluta de crítica;
- Alemanha: militares são “cidadãos de uniforme”;
- União Europeia: rejeição jurídica de censura total sob pretexto disciplinar.
Nenhuma democracia madura confunde disciplina militar com silenciamento político.
O perigo real: normalizar a ditadura legal
Quando só é permitido elogiar, ainda estamos numa democracia?
Leis como a “Lei Pakas” não surgem isoladas. Começam por um setor — hoje os militares — e avançam para jornalistas, académicos, ativistas e cidadãos comuns.
A história mostra que a ditadura raramente chega de tanques. Chega de leis.
Conclusão
Ao levantar estas questões, Álvaro Boavida Neto não interpela apenas o Governo — interpela o regime. A “Lei Pakas” tornou-se um teste decisivo:
- Angola escolhe reforçar a Constituição
- ou Angola escolhe legalizar o medo e o silêncio.
Uma democracia forte não teme a crítica. Um poder inseguro, sim.
MAKAMAVULO NEWS
Direção Editorial
Luanda – Angola
