Editorial: Quando a narrativa de “difamação” vira escudo contra denúncias

Editorial: Quando a narrativa de “difamação” vira escudo contra denúncias
Editorial – Difamação
Editorial: Quando a narrativa de “difamação” vira escudo contra denúncias –:–:–
Editorial: Quando a narrativa de “difamação” vira escudo contra denúncias
EDITORIAL

Quando a narrativa de “difamação” vira escudo contra denúncias

A recente tentativa de apresentar o empresário Minoru Dondo como vítima de uma suposta campanha difamatória nas redes sociais levanta uma questão central: quem realmente está a tentar manipular a opinião pública? Para muitos observadores, a estratégia não passa de um velho expediente — transformar denúncias graves em alegados ataques pessoais, com o objectivo de desviar a atenção do essencial.

Nos bastidores da comunicação social, cresce a convicção de que o discurso de “perseguição” não é espontâneo, mas sim cuidadosamente construído. O nome de Issac Cagundo surge com frequência nas análises e críticas como o principal articulador de uma narrativa destinada a proteger a imagem de Minoru Dondo, mesmo perante denúncias que continuam sem resposta pública convincente.

O padrão repete-se: surgem reportagens ou exposições com alegações sérias, a reacção imediata não é a transparência nem a apresentação de provas, mas sim o ataque à credibilidade dos jornalistas. Acusa-se a imprensa de difamação, questiona-se a legitimidade das publicações e tenta-se criar a ideia de que tudo não passa de uma campanha orquestrada. É uma táctica antiga, mas eficaz para quem pretende confundir a opinião pública e ganhar tempo.

O mais preocupante é que esse tipo de discurso, quando repetido com insistência, pode ter um efeito corrosivo sobre a liberdade de imprensa. Se toda denúncia for rotulada automaticamente como difamação, o que resta ao jornalismo investigativo? O que resta ao direito do cidadão de ser informado sobre possíveis irregularidades envolvendo figuras com influência económica ou política?

A narrativa de “extorsão” e “chantagem” também merece escrutínio. Até agora, não se conhecem decisões judiciais que comprovem tais alegações. Ao mesmo tempo, as denúncias contra o empresário continuam a circular, alimentando dúvidas que não foram dissipadas por qualquer explicação clara e documentada.

É precisamente neste ponto que a estratégia se torna evidente: em vez de esclarecer, cria-se uma contra-narrativa. Em vez de responder às acusações, ataca-se quem pergunta. Em vez de transparência, promove-se o ruído.

Para a opinião pública, a questão deixa de ser apenas se existe ou não uma campanha difamatória. A pergunta central passa a ser outra: por que razão tantas denúncias continuam sem resposta objectiva? E por que motivo a prioridade parece ser descredibilizar a imprensa, em vez de esclarecer os factos?

Nenhuma sociedade que se pretenda democrática pode aceitar que o poder económico seja utilizado como escudo contra o escrutínio público. Nem pode tolerar que a imprensa seja intimidada sempre que toca em interesses sensíveis.

Se há difamação, que a justiça prove. Se há denúncias, que se investigue. O que não se pode aceitar é a tentativa de transformar a narrativa de vítima num instrumento para silenciar perguntas incómodas.

Porque, quando a acusação de difamação passa a ser usada como arma contra a própria liberdade de imprensa, não é apenas um jornalista que é atacado — é o direito de toda a sociedade à verdade.