O PESO DO AUMENTO DO GASÓLEO E OGRITO DE UMA NAÇÃO
À meia-noite desta sexta-feira, os angolanos acordam com mais um golpe no bolso: o litro do gasóleo salta de 300 para 400 kwanzas. A medida,anunciada pelo Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo (IRDP), é mais um capítulo na política de retirada gradual dos subsídios aos combustíveis, defendida pelo
Executivo como necessária, mas que, na prática, esmaga ainda mais uma população já asfixiada pelo custo de vida, pelo desemprego e pela pobreza.
Este é o segundo aumento em pouco mais de três meses.
Em Março, o preço do gasóleo havia subido de 200 para 300 kwanzas, um ajuste que, na
época, já havia provocado ondas de protestos silenciosos porque, em Angola, até o descontentamento é
controlado.
Agora, o governo repete a dose, e os angolanos, sem fôlego, perguntam: até quando?
O aumento do gasóleo não é apenas um número a mais no painel dos postos de combustível.
É o rastilho que alimenta a inflação em cascata.
Se o gasóleo sobe, o transporte fica mais caro.
Se o transporte fica mais caro, os produtos básicos já escassos e inacessíveis para muitos disparam de preço.
O pão, o peixe, o óleo, o arroz… Tudo chega mais caro à mesa de famílias que já sobrevivem com
uma refeição por dia.
Os moto-táxis, vital para a mobilidade nas cidades, tornamse um luxo.
Os pequenos comerciantes, que dependem de geradores devido às falhas
crónicas de energia, veem os seus lucros evaporarem-se no combustível.
E os trabalhadores,que já gastam grande parte do seu salário no transporte, agora
terão de escolher: comer ou chegar ao emprego?
O Executivo justifica a medida como parte de um “ajustamento necessário”, argumentando que os subsídios aos combustíveis pesam no Orçamento Geral do Estado.
Mas, para o cidadão comum, soa como mais uma medida neoliberal imposta de cima para baixo, sem diálogo,sem alternativas, sem compaixão.
Enquanto a elite política e empresarial pouco sente o impacto, a maioria dos angolanos vive no limiar da
sobrevivência.
O desemprego juvenil é uma chaga aberta, os salários não acompanham a inflação, e os serviços públicos
saúde, educação, energia continuam precários.
A retirada dos subsídios, sem um plano de proteção social eficaz, é como tirar a muleta de um doente sem lhe dar tratamento.
A história mostra que os povos só mudam o seu destino quando se recusam a aceitar a opressão como
norma. Se em Março o aumento do gasóleo gerou murmúrios, hoje é preciso mais do que lamentações.
É preciso organização, união e coragem para exigir políticas que não sacrifiquem os pobres em nome de
um “ajuste económico” que só beneficia os de sempre.
O povo angolano merece dignidade.
Merece respostas, não apenas aumentos.
Merece ser ouvido, não apenas
silenciado.
Se o governo insiste em apertar o cerco, que o povo insista em resistir.
Porque, quando a vida já é tão cara, o que mais temos a perder?
O recado está dado.
O preço do gasóleo sobe.
E a paciência do povo?
Fonte : Jornal Galo Negro
